terça-feira, 19 de outubro de 2010

COMO UM RELOGIO QUE FAZ TIC TAC

COMO UMA BATERIA DE CARNAVAL QUE FAZ TUM TUM TCHÁ


Tum - tum

Tum – tac

Tic – tum

Tic – Tac


Era uma vez um coração que batia mecanicamente, como um relógio. Assim como os ponteiros, batia freqüentemente e ritmicamente, sem alterar seu período ou sua sonoridade. Como uma máquina, cumpria sua função e só, não se desviava de sua missão. Contrai-se em sístole ao fechar as válvulas mitrais e tricúspedes de maneira bruta, relaxava-se em diástole lentamente com as válvulas aórticas e pulmonares fechando. Fazia circular o sangue no corpo, e era isso só.

Era um tanto preguiçoso, um pouco presunçoso, com uma pitadinha de egocentrismo e com manias próprias. Não gostava de bater por outra pessoa à não ser sua dona; era restrito ao corpo em que fazia parte, era ímpar.

Mas um dia, ficou próximo de outro coração. Ouviu seu ritmo, que batia de maneira retumbante e forte – e batimento do coração é como DNA, cada um tem o seu – e sentiu uma vibração estranha. Uma alta taxa de hormônios desceu pela corrente sangüínea; oxitocina, dopamina, feniletilamina, endorfinas e todas os outros “inas” que existem o invadiram, alimentando-o de fogo e de gelo ao mesmo tempo, causando seu batimento ficar desacelerado e des-ritmado.

Ora, o que era aquilo?

O que poderia ser aquilo, que de repente e do nada mexeu com toda a sua estrutura, todo o seu ritmo, toda sua função, todo seu propósito? Agora batia aceleradamente, sem poder se frear, sem poder entender nada. Que sentimento simultâneo era aquele, de aperto e aconchego? De dor e de prazer? Que vontade era aquela, de pular para fora da boca de sua dona?

Foi então que percebeu os batimentos cardíacos vindo de outro perto dele. A sua dona deveria estar perto de outra pessoa, raciocinou. Foi então que viu tudo, através daquela sensação de proximidade com outro.

Ele já não era mais egocêntrico, já não era preguiçoso, já não era impar. A partir daquele dia, daquele momento, ele já sabia que não tinha apenas sua dona como proprietária; era também pertence daquele que havia plantado um beijo em seus lábios e feito todo a mecanização do pobre coração ficar des-regulada. Já não batia mais apenas para si mesmo, batia por outro. E também já não era preguiçoso, era só seu outro dono passar perto que este começava a se contorcer euforicamente, querendo sair da dona para se juntar ao coração do outro.

Era par.

E batia não mais como um relógio, e sim como uma bateria de escola de samba.


Tum - tum.

Tum – tum - tchá

Tá - tá - tá – tum - tum – tchá.

Tchá – tchá – tum - tum



Nenhum comentário:

Postar um comentário