sábado, 5 de junho de 2010

Mar Revolto

Joaquim vinha apressado, o guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Seu coração batia rápido, acelerado como sua respiração, um frio passando por sua espinha e suas mãos – encharcadas de suor e um liquido vermelho, quente e denso. Era sangue.

Fechou os últimos botões de seu sobretudo, escondendo sua blusa manchada de sangue. No seu bolso, a arma de metal pesava toneladas. Fechou os olhos e pôs-se a deslizar na parede, sentando no meio-fio. Tentou se acalmar respirando lentamente, sentindo o cheiro salgado do mar das docas invadir seu corpo. O mar lhe dava uma sensação de paz, e logo, logo, seu coração não estava martelando em seu peito.

Lembrava-sedo que havia acontecido; tudo parecia ser como um filme passando por detrás de suas pálpebras. Joaquim fechou os olhos e as memórias vieram em sua cabeça, vividas e perturbadoras;.

Estava sentado em uma poltrona em frente a uma lareira. Olhava para o relógio, impaciente, e depois para a porta, ansioso. Esperava, esperava, esperava; podia ouvir cada rangido daquela casa e o pêndulo do relogio escoava em todos os cantos, o “tic... tac...” repetia-se eternamente pelo ar. Tamborilava os dedos na poltrona e em seu joelho, tentando se acalmar. Uma vez ou outra tirava o revolver do bolso e o examinava, conferindo se as balas estavam ali, e voltava a guarda-lo.

Olhou para as fotografias penduradas na parede; fotografias dele e de sua esposa, os dois sorrindo de orelha a orelha. Quem visse, acharia que eram o casal mais unido de todos. Viu a foto do dia de seu casamento, onde Joaquim segurava orgulhosamente a cintura de sua mulher, sorrindo de forma besta e honesta; sua esposa trajava um vestido cheio de rendas e pérolas, os cabelos longos domados em um coque alto adornado de presilhas e jóias. Sorria, com seus lábios claros e finos, e segurava a mão do marido com firmeza.


Joaquim indagava-se se vivia em uma mentira. O que seria aquilo? Falsidade? Suposto amor?

Estaria vivendo em uma mentira?

Levantou-se e caminhou ate a fotografia, segurando firmemente em suas mãos, vendo os nós de seus dedos ficarem brancos pela força que utilizava para segurar a moldura.


Olhava para a mulher, sentindo uma raiva enorme explodindo em seu peito; a vontade de vê-la sofrendo do jeito que ele sofria aumentava a cada segundo. Pegou a fotografia e a jogou contra a parede, vendo o vidro quebrar-se em mil pedacinhos. A foto continuou intacta, o que lhe perturbou; pegou a foto e rasgou a mulher fora dela, rasgando-a inteira e finalmente jogando-a na lareira.


Deleitou-se ao ver a imagem queimando, e um sorriso macabro apareceu em seu rosto.


Finalmente, ouviu passos vindos do assoalho do corredor, e logo a porta abriu, rangente. Uma mulher alta, loira de cabelos que lhe caiam nas costas de maneira bagunçada e de intensos olhos azuis apareceu, rindo e beijando um homem duas vezes maior que Joaquim, ombros largos e queixo protuberante.


Ele beijava-lhe sem pudores os ombros desnudos da mulher, brincando com a alça de sua blusa e deslizando-a para poder beijá-la ali. Passava as mãos por sua cintura, quadril e coxas, puxando-a sempre mais para perto, e brincava com algumas mexas de seu cabelo, enrolando-as em sua mão. Sussurrava no ouvido da mulher, fazendo-lhe cócegas; riam, e pareciam rir da desgraça de Joaquim.


Ora, quem diria que sua esposa estaria cometendo adultério com o amigo de infância do homem?


Joaquim pigarreou, anunciando a sua presença no recinto. Pareciam tê-lo notado, os dois pararam abruptamente quando viram que Joaquim encontrava-se ali, ajoelhado diante a lareira com um sorriso estranho no rosto.


-Joaquim...? - disse sua mulher, com a voz ofegante.


Ela colocou uma mexa de cabelo loiro atrás da orelha e olhou para o marido e para o amante, tentando achar alguma explicação lógica para dar. Joaquim continuou sorrindo, e levantou-se lentamente, olhando para os dois.


Sua mulher e seu melhor amigo... Sua mulher e seu melhor amigo...”, pensava constantemente. Sentia uma vontade de rir, rir de si mesmo por ser bobo ao pensar que os dois eram fiéis a ele.

-Me desculpe... Foi algo que aconteceu, não era algo que queríamos... - seu amigo balbuciava, tropeçando em palavras.


Joaquim riu friamente, como se este tivesse contado uma piada. Os outros dois arrepiaram-se e deram um passo para trás, passando a temer as ações do moço.


-Minha mulher... E meu melhor amigo... - disse Joaquim em voz alta, aproximando-se deles – Minha mulher... E meu melhor amigo...


Os dois deram um passo para trás. Joaquim trazia consigo um sorriso sinistro no rosto, e não parecia ter boas intenções.


-Amor... - disse sua mulher, levantando as mãos, como se pedisse rendimento.


Joaquim riu de novo, e sua risada ecoou na casa.
Sua casa.

-Você ainda me chama de amor, quanta consideração! - disse, sarcasticamente, ainda rindo de forma abestalhada – E ainda os dois na
minha casa, enquanto eu estava viajando a negócios... Eu vim mais cedo por causa de você, amor.

Joaquim frisou a ultima palavra, falando em um tom de deboche. Aproximava-se cada vez mais, e logo, os dois não podiam recuar mais ainda. Sorriu ao ver pânico tomar conta de sua mulher.


-Joaquim... Por favor... - murmurou, tentando achar palavras. Parecia estar a ponto de choro.


Porém, Joaquim apenas ria – aquela situação parecia agradar-lhe.


Sem pensar e sem dar explicações, sacou o revolver e atirou nos dois, abafando o barulho ensurdecedor com a almofada.


Os dois corpos caíram sem vida no chão com um baque surdo, com os olhos vidrados e assustados, os lábios entreabertos pelo grito silencioso que nunca saiu de suas bocas.


-Vão ficar juntos no céu, desgraçados- disse Joaquim, com profundo desgosto aos cadáveres em sua frente – Ou até mesmo no inferno... Só sei que eu irei para lá.


Não se importava que tinha acabado de cometer dois homicídios. Nada mais lhe importava – tudo que tinha significado era seu amor pela sua mulher e por seu melhor amigo, mas agora Joaquim soube que isso também fora insignificante; era tudo apenas uma farsa, uma enorme peça de teatro.


Olhava para as pessoas em sua frente, com seus lábios contorcidos em um sorriso. Pegou todas as fotografias que estavam penduradas nas paredes e as jogaram no chão, fazendo milhares cacos de vidros se espalharem por todo canto. Pisava nelas, querendo esmagar todo a dor que sentia.


Foi até o canto da sala, cantarolando a música da primeira dança dos noivos em seu casamento, saltando pelos dois corpos no chão como se fossem meros objetos. Chegou até o corredor, onde havia deixado uma garrafa de querosene, e a trouxe até a sala, ainda cantarolando a melodia.


Espalhou querosene por todo lado, fazendo questão de encharcar os dois corpos naquele liquido. Assim que o galão já estava vazio e a música havia acabado, jogou o recipiente para o lado e dirigiu-se até sua mulher – quer dizer, ex-mulher – e quis tirar-lhe a aliança. Não consegui.


-Sem pressa, sem pressa... - sussurrava para si mesmo - Não tenho pressa...


Voltava a cantarolar a música. Como não conseguia, pegou uma faca e cortou o dedo anelar de sua mão, retirando a aliança de seu dedo e colocando-a no bolso. Jogou o pedaço de seu dedo no chão, acabando por sujar sua blusa de sangue. Deu de ombros e levantou-se, olhando ao redor. Algumas faíscas jorravam para fora da lareira, e pouco a pouco, foram queimando umas fotos largadas no chão; o fogo aumentava de uma forma ameaçadora, criando rastros e labirintos por todos os lados.

Joaquim não se importou que estava pondo fogo na própria casa. Saiu de lá, sem antes pegar o guarda-chuva por causa da chuva que começava a cair. Caminhou por um tempo, e logo viu a casa inteira começar a sucumbir pelo fogo que aumentava. Os vizinhos acordaram, assustados, berravam freneticamente, corriam pelo telefone para chamar os bombeiros ou corriam pela rua; mas ninguém parecia notar numa figura que andava meio apressado e meio devagar, cantarolando uma melodia dos Beatles no meio de toda aquela berraria.

Agora, sentado no meio fio perto das docas, Joaquim pegou o anel ensangüentado no bolso e viu este reluzir na fraca luz vinda do poste. Sorriu, e quem ria por ultimo ria melhor. Jogou o anel no mar, esperando que este fosse levado embora – assim como o amor e a vida de sua esposa.

3 comentários:

  1. Dudaaaaaaa, muito tenso o seu texo ! A narrativa mantém o clima de suspense, sem deixar pontas soltas, sendo detalhado sem cansar, amei ! Parabééns linda !

    ResponderExcluir
  2. adorei o texto, duuuds! muito bom, de verdade! beijinhos

    ResponderExcluir
  3. DUDA VOCÊ ESCREVE MUITO BEM E EU TE AMO. <33

    ResponderExcluir