quinta-feira, 3 de junho de 2010

CHOCOLATE

Na cidade de Londres, ali vivia um garoto chamado Jacqués Piercé.

Jacqués havia crescido na pequena cidade de Chartres, na França, e havia se mudado as sete anos para Londres para viver na casa de sua avó, após o falecimento de sua mãe de de seu pai. Apesar de sentir muita falta de seus pais, adorava viver com sua vó; ela lhe ensinara a tocar piano, a desenhar, a escrever, a fazer chocolate...

Ah, chocolate!

Era a paixão do pequeno garoto. Ele era fanático pelo doce, e não demorou muito até que passou a fazer suas próprias receitas, impressionando sua vó, que sempre botava a mão em cima do coração e ficava com um sorriso enorme - aqueles que só as avós conseguem fazer – enquanto via o seu neto na cozinha, experimentando e misturando tudo. Sempre havia alguma confusão na cozinha, e as criadas ficavam doidas tendo que correr para limpar tudo e colocar tudo no lugar, mas a avó de Jacqués não se importava – desde que ele estava feliz, ótimo.

Não demorou muito para Jacqués realmente pegar o jeito e começar a aperfeiçoar sua arte, e aos passar dos anos, seu gosto foi se refinando, e seus chocolates começaram a ficar elegantes e famosos; todos os conhecidos da avó de Jacqués pediam para experimentar, e ninguém duvidava que o rapaz tinha um talento fora do comum. Era simplesmente... delicioso.

Quando terminou de estudar no colégio – Jacqués acabou se formando com mérito, por ter as notas mais altas de sua turma – ele abriu seu próprio negócio na casa que comprará na central de Londres. Ele começou a criar novas receitas, inventando e inovando a cada hora; era apaixonado pelo que fazia e não trocaria por nada.

Todos na cidade já conheciam seu nome. A loja estava sempre cheia, e a demanda pelos produtos era enorme e tudo estava fugindo do controle de Jacqués. Seu nome e seu chocolate atravessou quase toda Europa, chegando até as mãos da Rainha e todo o parlamento, fazendo a felicidade do humilde chocolatier crescer cada vez mais.

Este então decidiu abrir uma loja nova, mas os pedidos continuavam chegando como uma avalanche, e alguma decisão teria que ser tomada logo antes que os clientes passassem a ficar irritados com o atendimento e a exclusividade.

Com o dinheiro que já havia acumulado, comprou um terreno perto de sua casa e começou a construir sua própria fábrica. Após meses, estava pronta e Jacqués ficou ansioso para dar início a linha de produção.

Uma grande festa fora organizada para comemorar o grande passo na vida comercial de Jacqués, e embora o mesmo não gostasse de tantas pessoas ao seu redor, ele fingiu um sorriso e foi a comemoração, tentando disfarçar a cara de tédio e de repulsa.

Nunca se envolvia muito com os clientes – havia contratado alguém para ficar no balcão para isso. Fora criado tão preso em seu mundo que não se envolveu muito com o exterior, e frequentemente tinha dificuldade para se relacionar com alguém. Muitos diziam, por suas costas, que sofria de autismo, mas isso era só má publicidade que as concorrentes lançavam por ai.

E Jacqués não se importava sobre o que diziam sobre ele. Se ele continuasse fazendo chocolate, ele estaria feliz e ponto.

Porém, naquela festa, algo de diferente aconteceu em sua vida.

Sophie Adams.

Era uma mulher diferente de tudo que Jacqués já havia imaginado. O sorriso lhe lembrava a doçura de seus chocolates, os olhos sedutores, fortes, o gosto amargo do café, a pele chegava a ser tão pálida que recordava Piercé de seus chocolates brancos, irresistíveis e tentadores. Andava de um jeito único, jogando os longos cabelos loiros para trás, que balançavam suas ondas em suas costas, chegando a sua cintura fina e convidativa. Usava um vestido que revelava o seu busto com pequenas sardas, mostrando suas clavículas no meio daquele mar de leite que era seu corpo. Os braços, despidos, fez com que um choque corresse sobre a espinha de Piercé – e quando se aproximou dela, sentiu o cheiro entorpecente de ervas e vinho, sua bebida favorita.
Ele se curvou diante daquela majestosa presença e ofereceu-lhe o braço, pedindo para dançar com a moça. Um sorriso apareceu em seus lábios vermelhos-carmim, criando uma pequena covinha em sua face cheia de sardas. Ela aceitou, e quando seu corpo se aproximou de Jacqués, sentiu um desejo vindo do seu interior para possui-la logo ali.

Mas esperou e se conteve.

Já havia estado com outras mulheres antes, mas todas eram para suprir desejos carnais comum em qualquer homem. Nunca realmente tinha se ligado emocionalmente a uma; não via o porquê e também estava muito atarefado com seu negócio, que exigia grande parte de sua atenção.
Mas Sophie... Era diferente. Nunca havia sentido aquilo por outra, e nunca imaginara que ia sentir. Se era amor, como lia em sua enorme coleção de livros que se encontravam em longinquas prateleiras em sua casa, não sabia, mas era algo bem próximo daquele sentimento de total submissão ao outro que havia lido em tantos romances, mas nunca havia entendido.
E ela pareceu sentir o mesmo pelo rapaz, e logo se casaram, e Sophie se mudou para a casa de Jacqués. Ela entendia que ele era diferente, havia algo em sua personalidade que era extremamente curioso e misterioso, o que atraia bastante Sophie. Cada dia que passava, ela tentava decifrá-lo, mas ele nunca a deixava entrar em sua mente; ele era sempre recluso em seu próprio mundo, e depois de um tempo sua esposa passou a perceber que nunca teria sucesso em decifrar seus mistérios.

Algum tempo se passou, e eles continuavam felizes casados. Jacqués ainda não conseguia resolver se aquilo era amor ou não, mas já havia pronunciado as três palavras mágicas tantas vezes para Sophie para não machucá-la que passou a acreditar em si mesmo, mesmo não sentindo tudo aquilo que as personagens de seus romances sentiam. Muitas vezes, ao calar do noite, iria para sua própria biblioteca particular e relia as passagens de amor várias vezes, procurando algo secreto, entrelinhas; queria saber a verdade, queria se sentir do mesmo jeito que as personagens sentiam... Mas era possível.

E isso, depois de algum tempo, passou a frustrá-lo.

Até que um dia tudo deu errado.

Seus chocolates mudaram; não tinham o mesmo gosto do que antes. Não eram mais deliciosos, supremos, majestosos, divinos; o sabor era apenas normal.Não eram cremosos, não tinham a mesma textura do que antes, nem o mesmo toque de perfeição. E Jacqués não podia permitir isso.

Foi como sua vida inteira estivesse desmoronando em sua frente, seu coração sendo quebrado pedaço a pedaço, e praticamente se auto-mutilava quando novas receitas vinham em sua mente. Sofria, sofria e sofria – mas não conseguia derramar uma lágrima de seus olhos castanhos, que deveriam estar em pura chama pela fúria que sofria.

Decidiu, então, culpar seu casamento pelo seu fracasso, e Sophie pareceu não gostar muito disto.
Começaram a discutir toda a noite, e sua esposa sentiu que não conseguiria aguentar mais. Foi procurar conforto nos braços de Matthew Edgar Moose, um dos sócios de seu marido e amigo da família. Este logo a acolheu em seu abraço, oferecendo seu ombro para a moça chorar e, com um gesto de ternura, afagava-lhe o cabelo e secava suas lágrimas.

As visitas de Sophie a casa de Moose passaram a ser frequentes, e um grande afeto começou a surgir entre os dois. Uma noite, seus olhares trancaram um no do outro, e Sophie sentiu algo quente percorrendo em todo o seu corpo; era o desejo, que faz tempo, não o sentia. Era algo novo, excitante, e não conseguia sair de sua mente; os dois logo se apaixonaram e passaram a fazer amor; encontrava nos braços de outro o seu próprio paraíso, e apesar de adultério ser condenado pela Bíblia, Sophie já não ligava mais para aquilo; Matthew era tão carinhoso que ela contava as horas para sair de sua casa com Piercé para encontrar com seu amante, que realmente sabia valorizara.

O caso entre os dois durou duas voltas no calendário quando Sophie passou a reunir coragem para fazer algo que há muito tempo desejará fazer; pedir o divórcio.

Porém, Jacqués fora mais rápido; já havia desconfiado há muito tempo que algo suspeito estava acontecendo com sua esposa, e em uma noite enquanto estava em seu escritório, olhando para sua fábrica com a expressão quebrada e de fracasso em seu rosto, ele viu alguém lá fora, na neve. Era Matthew Moose, um de seus sócios com quem tinha mais afinidade. Pensou em descer para perguntar as estatísticas do negócio para ele, mas imediatamente mudou de ideia quando avistou sua esposa correndo para seu abraço, os dois desaparecendo logo em seguida pela escuridão que rondava as ruas de Londres.

Ele sentiu aquela escuridão infectar seu coração quando os viu de mãos dadas, e uma fúria incontrolável afetou sua mente. Surtou, e sem conseguir se controlar, já havia destruído todos os móveis que estavam ali e havia rasgado a maioria dos papeis que estavam sobre sua escrivaninha. Pegou a foto de seu casamento com Sophie e jogou no fogo, sentindo prazer ao ver a figura de Sophie sendo queimada instante após instante...

Não ia deixar aquilo assim. Além de ser um péssimo chocolatier, era um péssimo marido?
“Não irei deixar isso acontecer”, pensou, por fim.

O caos e a destruição em seu redor pareceram acalma-lo, e após se deitar no meio daquela confusão de madeira quebrada, pedaços de vidro estilhaçados, papeis cortados e outros objetos destruídos, sentiu a paz reinar em sua mente quando pensou em uma solução para todos os seus problemas.

Tanto como ser um péssimo marido, como ser um péssimo chocolatier.

Um sorriso maquiavélico se apoderou de sua face quando uma nova receita subitamente apareceu em sua mente.




Alguns dias se passaram quando Matthew passou a ficar preocupado com a ausência de Sophie. Ela nunca mais havia enviado cartas para ele, nunca mais o havia visto e nunca mais havia se deitado ao seu lado na cama. Sentia falta de seu cheiro, de seu toque, de seu sorriso e de seu calor, e não entendera o motivo pelo súbito desaparecimento da moça em sua vida. Como poderia viver sem ela? Certamente, não iria conseguir. Será que ela havia decidido ser fiel à seu esposo?

Uma dor espalhou-se pelo seu corpo ao sentir o gosto amargo na boca pela perda e pela separação. Não conseguia imaginar Sophie e Jacqués juntos sem sentir como se uma navalha estivesse perfurando seu coração.

Também fazia tempo desde que não via Jacqués. Estava sempre trancado em seu escritório em sua casa ou em sua casa, ou andando pelo último andar em sua fábrica, com a porta trancada. Das poucas vezes que Matthew via Jacqués, ele estava pálido, com bolsas negras e profundas embaixo dos olhos, completamente magro e de uma expressão um tanto... doida. Havia surtado? Os rumores que circulavam de boca em boca estavam, então, certos?
Apesar de tudo aquilo, quando seus olhares cruzaram no corredor, Matthew sentiu medo. Havia fúria nos olhos de seu patrão, uma fúria imensa que chegava a aterrorizar o homem mais corajoso de todo o planeta, apenas por um simples olhar.

O evitava sempre que podia.

Após um longo período de trabalho, Matthew caminhava devagar pelas ruas de Londres em direção à sua pequena casa, sem ter pressa nenhuma. Estava inteiramente cansado e exaurido, e começou a desejar uma boa e reconfortante taça de vinho sua poltrona na frente de sua lareira para conseguir relaxar. Isso o motivou para acelerar o passo para chegar logo em sua moradia, ansioso para uma noite calma e relaxante – já estava sentindo muita tensão nos últimos dias; como se algo se espreitasse nas sombras, pronto para ataca-lo quando estivesse vulnerável. Pensava que aquilo era apenas paranoia e jogos de sua mente e decidiu esquecer – já existia drama o suficiente em sua vida para se preocupar com aquilo.

Quando chegou a sua porta, estava prestes a entrar em casa quando viu uma carta endereçada a ele em cima do carpete, ao lado de uma taça de vinho elegantemente embrulhada. Pegou a taça e a carta e entrou em sua sala, jogando seu casaco e seu chapéu no chão e correu em direção ao sofá, curioso para saber do que se tratava daquilo.

A carta era de Jacqués Piercé.


“Caro Mathew,

Eu estava pensando se poderíamos jantar juntos neste domingo. Eu sei que é muito em cima da hora, e lamento por convidá-lo tanto as pressas, mas já faz um longo tempo que não conversamos – acho que está na hora de colocarmos a conversa em dia e reatarmos nossa amizade, o que acha?

Estarei lhe esperando em minha casa, na hora do jantar. E eu imploro para que você não abra o vinho; iremos aprecia-lo durante a refeição. Eu acabei inventando uma nova receita de chocolate, e eu iria agradecer se você pudesse ser o primeiro a experimenta-la e dar sua opinião sobra ela.

Eu estarei lhe esperando ansiosamente,

Jacqués”


Matthew franziu o cenho. Havia algo suspeito naquilo, era óbvio; mas a ideia de que veria Sophie novamente na casa de Jacqués fez uma alegria começar a semear em seu coração. Sorria de maneira abestalhada, de um jeito que não sorria já faz tempo – a sensação de felicidade o havia contagiado novamente. Talvez conseguiria falar com Sophie a sós, exigir uma explicação pelo seu desaparecimento da vida de Matthew, o porquê dela ter arrancado seu coração...

Sem perceber, acabara adormecendo em seu sofá, segurando a carta em seu colo. Sonhou com seu primeiro beijo com o Sophie, o quanto ela relutou mas acabou cedendo; a primeira vez que fizeram amor, e por consequência, ela acabou deixando sua fragrância ervosa e entorpecente em sua cama, a primeira vez em que disseram 'eu te amo', a noite em que passaram em claro, abraçados um ao outro... E via Sophie lucidamente em seu sonho, como se ela estivesse realmente ali ao seu lado, com o seu sorriso magnifico em seu rosto.

“Logo estaremos juntos...”, ela sussurrava em seu ouvido, como se fosse uma promessa.

O sorriso bobo permaneceu em seu rosto durante todo o seu sono e as aventuras que revivia com Sophie.

Acordou quando os primeiros raios de sol começaram a domar sua sala de estar; havia deixado as cortinas abertas. Xingando pela imensa claridade e pela sensitividade de seus olhos, levantou-se, cobrindo seu rosto com as mãos enquanto tateava a parede em busca da cortina. Quando sua mão alcançou o tecido, a fechou, e pode abrir os olhos novamente, sentindo um imenso alívio.

Sabendo que não conseguiria dormir de novo, encaminhou-se para o banheiro e banhou-se, sentindo a água fria lavar todo seu corpo, que estava numa temperatura relativamente alta pelos sonhos que acabara de ter com a mulher que amava. Secou-se com uma toalha e foi até o seu quarto, nu, e abriu seu guarda roupa, procurando algo para usar. Resolveu colocar logo a primeira coisa que viu em sua frente, e após vestir-se, foi em direção a cozinha preparar o café da manhã.

De vez em quando, sentia-se muito mal em acordar e virar ao lado de sua cama e não ver ninguém ali, de preparar o café apenas para uma pessoa e não ter ninguém para lhe desejar “bom dia”. Isso já o incomodava faz tempo, mas as palavras sussurradas por Sophie deram-lhe esperança, uma visão que logo, aquilo tudo iria mudar, e finalmente estariam juntos.
Outro sorriso bobo estampou-se em seu rosto.

Passou o resto da tarde ansioso, vendo os ponteiros se moverem lentamente – e de um jeito tortuoso – em seu relógio. Queria que a hora chegasse logo para poder ir à casa de Jacqués e reencontrar-se com sua amada...

Foi quando chegou a hora que um estalo ocorreu em seu corpo e mente. Trocou de roupa, barbeou-se, colocou seus sapatos novos e seu chapéu, não se esquecendo de pegar a taça de vinho que Jacqués o havia dado de presente. Dirigiu-se para seu Ford preto e ao ouvir o som da ignição, dirigiu-se para a casa de seu velho amigo.

Ao chegar na simplória casa, sentiu um nó em sua garganta. Algo começou a lhe dizer para virar de costas e se afastar dali; algo estava prestes a dar errado... Ignorou esses sentimentos de alerta quando a imagem de Sophie voltou a sua mente. Era só paranóia.

Bateu na porta, e ninguém veio atendê-lo.

Bateu novamente.

E novamente.

Nada.

Estava prestes a voltar para casa quando ouviu o clique de metal e as portas rangendo, indicando que alguém finalmente veio lhe atender. Lhe estava Jacqués, com aquele ar psicopatológico que Matthew havia tanto temido; ele sorria de uma maneira estranha, como se alguém lhe tivesse costurado os músculos da face para permanecer eternamente daquele jeito.

Havia um brilho estranho em seus olhos.

“Matthew, que bom que veio!”, disse apertando sua mão, utilizando-se de uma força maior do que aparentava possuir.

Matthew forjou um sorriso, e tentou esconder a careta de dor enquanto Jacqués segurava sua mão. O anfitrião logo indicou para sua visita entrar, tomando seu casaco e seu chapéu em seguida, e pendurando-os em um cabineiro perto da porta. Estava repleto de teias de aranha.
Matthew olhou ao redor depois de constatar aquele fato – a casa inteira estava uma bagunça. Tudo estava jogado no chão, e parecia haver uma grossa camada de poeira em cada canto da casa. As prateleiras estavam vazias e os armários, revirados; livros empilhados serviam como mesa de apoio enquanto estas jaziam quebradas no meio da sala.

Havia algo muito esquisito ali.

E nada de Sophie a vista – sentiu sua alma se despedaçar e se transformar caótica do mesmo jeito que aquela casa estava quando se deu conta deste fato.

O jantar se prosseguiu, quase todo em silêncio, e Matthew notou como Jacqués comia pouco ou quase nada; e reparou que o homem parecia ter perdido metade de seu peso desde a ultima vez que o havia visto. Conseguia ver nitidamente os ossos aparecendo na pele praticamente branca do homem; estava tão pálido que até seus lábios haviam perdido a cor – a única coisa que chamava a atenção em seu rosto eram os olhos negros e as bolsas embaixo destes.
E é claro, o sorriso assustador que perpetuava em sua face.

Matthew tentou criar um assunto – aquele silencio já estava começando a perturba-lo. Falava sobre o tempo, política, negócios... E este último assunto pareceu animar Jacqués. Quando terminaram a refeição, os dois se levantaram e foram em direção a sala de estar – se ainda existe sala de estar, pensou amargamente Matthew – onde Jacqués acendeu a lareira e pegou a taça que Matthew havia trago e duas taças do mais fino cristal. Foi a cozinha sem dizer nenhuma palavra, e voltou trazendo em suas mãos uma travessa de prata com vários bombons cuidadosamente desenhados e detalhados. Tinha uma leve cor avermelhada, e aparentavam serem deliciosos.

“Creio eu que havia mencionado na carta que havia criado uma nova receita”, Jacqués disse, e Matthew concordou, movimentando a cabeça de jeito afirmativo. “Gostaria que experimentasse e me dissesse o que acha”

Ele colocou uma quantia generosa de vinho no copo de Matthew e entregou a taça para o homem, e serviu-se de uma quantidade quase minima. Matthew franziu o cenho quando viu a discrepância entre as quantidades.

“Estou tentando parar de beber”, explicou-se Jacqués. Apontou para a travessa de prata e depois para a taça na mão de sua visita “é bom degustar o vinho depois de experimentar chocolates – é a mistura perfeita.”

“Certo”, disse Mathew, e pegou um dos bombons que estavam na travessa. Colocou em sua boca, mastigando de maneira lenta e atenciosa.

Ele sentiu o doce derreter em sua boca, era delicioso. O cheiro parecia ser algo com baunilha e era forte, mas a suavidade de seu gosto criavam uma balança com isto. Podia sentir toda sua consistência e textura, e sua cremosidade misturada com a força das nozes era praticamente explosiva – e havia algum outro ingrediente que Matthew não conseguia decifrar.

“Nossa, é delicioso!”, exclamou com toda sua sinceridade após engolir o alimento, e colocou outro bombom em sua boca. “Quais são ingredientes?”

“Nozes, baunilha...”, ele começou a listar, mas um sorriso sinistro surgiu em seus lábios. “... e um ingrediente secreto”

A curiosidade cresceu em Matthew, e não conseguiu evitar de se servir de outra porção daquele doce que parecia ser divino. Não conseguia parar de comer; havia algo bem misterioso em sua composição, e queria descobrir logo o que era.

“Ingrediente secreto?”, disse, engolindo com força o chocolate antes que pegasse outro.

Jacqués parecia estar se esbaldando pelo desejo que Matthew parecia demonstrar por seus bombons; o sorriso perpetuava-se em seu rosto. Pegou outra travessa, que havia mais bombons e colocou-a na frente de Matthew, que logo a avistou com olhos gulosos.

“Sim. Desafio você a descobrir qual é”, um brilho passou pelos seus olhos. A ideia do jogo, do desafio, pareceu satisfaze-lo ainda mais.

Matthew pegou sua taça de vinho e a girou lentamente antes de leva-la aos seus lábios, para que a essência ficasse mais impregnada e mais forte. Tomou um pequeno gole e repousou a taça numa pilha de livros ao lado de sofá, e ficou com medo que a taça caísse no chão pela inclinação nada reta dos livros empilhados. Pegou outro bombom e o mastigou lentamente, tentando o decifrar o mistério... Mas era em vão.

Nunca havia experimentado algo tão sublime como aquilo. Seria um ingrediente exclusivo, totalmente novo?

“Você pode me dizer!”

Jacqués pigarreou antes de dar a resposta, que a pronunciou em voz alta e clara:

“Sophie”.

Matthew engasgou em seu chocolate, não entendendo a resposta. Jacqués continuou o observando com a mesma expressão; apesar do sorriso, não parecia estar fazendo alguma piada ou algo do gênero.

“Sophie – isso que você ouviu”, Jacqués repetiu, olhando para a taça de vinho em suas mãos. “Esse é o ingrediente secreto”.

Matthew sentiu uma sensação de frio percorrer sua espinha, e pânico tomou conta dele. Não, ele não está falando a verdade, ele simplesmente endoideceu.., pensava com todas as suas forças, desejando que tudo aquilo fosse apenas um mal entendido.

Precisava se acalmar, e pegou sua taça de vinho e tomou todo o seu conteúdo. Não conseguia acreditar no que estava ouvindo... Não podia ser verdade...

Começou a tossir, sentindo dificuldade para respirar. Suas pernas começaram a tremer, e não conseguia sentir mais controle sobre elas. A sala ao seu redor começou a girar, a girar, a girar... Tudo começou a girar de um jeito tão rápido que não conseguia mais saber se estava sentado ou se já havia caido no chão. Tudo que conseguia ver fixamente era o sorriso que cada vez crescia mais e mais nos lábios de Jacqués, que parecia estar aproveitando o fato dele estar passando mal.

“Este vinho é realmente ótimo, não acha?” disse Jacqués, colocando o seu dedo no liquido vermelho e o provando com a ponta de sua língua. “Uma pena que esteja envenenado”

“O que... O que você fez?” Matthew lutou para conseguir se pronunciar, por entre sua tosse e a sua incapacibilidade de conseguir oxigênio.

“Eu estou dando a você e Sophie um final digno de Romeu e Julieta, Sr. Moose”, disse Jacqués com um tom sarcástico em sua voz.

A tosse piorou, e Matthew não conseguia mais respirar. Sentia como se alguém o estive asfixiando, e havia acabado todo o oxigênio na terra. Agora, tudo estava um borrão, inclusive a cara de Jacqués. Contudo, ele ainda ouviu a risada fria e alta que ecoava na casa inteira.
Continuou ouvindo seus ecos até que tudo escureceu, e não via nem ouvia nada.

Jacqués Piercé olhou para o cadáver em sua frente, com seus olhos brilhando. Pegou um dos últimos bombons que sobrara na travessa – Oh, Sr. Moose, como era guloso!, pensou, rindo consigo mesmo na memória do homem que havia acabado de falecer - colocou-o em sua boca, mastigando-o de maneira devagar, querendo aproveitar cada pedaço deste.

Estava feliz; finalmente havia encontrado o ingrediente secreto.

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