terça-feira, 6 de julho de 2010

QUARTO 304 [Prólogo]

HOTEL CALIFORNIA – QUARTOS VAGOS!


Hotel California é um estabelecimento familiar que data sua origem há mais de um século, e que nos dias atuais está caindo a beira do esquecimento e do abandono. Por seus quartos já se passaram gente de todos os tipos: mafiosos, gangsters, prostitutas, empresários, corruptos, mentirosos, sonhadores, viajantes, policias, assassinos, casais apaixonados e até mesmo criaturas não humanas – se é que isso é possível. Um dos quartos especiais, contudo, está situado ao terceiro andar, e é marcado por ser o quarto com mais precariedades – e também o quarto com mais vida do hotel.




Primeiramente, olá prezado leitor!

Seja muito bem vindo a... a... Seja lá o que for isso. São umas pilhas de folhas amassadas que havia deixado no canto de meu armário e, finalmente, resolvi arrumá-las. Faz tempo que eu não escrevo nada, e sentir uma pena na mão arranhando um papel, cursando traços e contornos, fazendo letras e compondo palavras me dá calafrios de prazer.

Escrevo sobre uma luz fraca, de uma lamparina cujo vidro está todo sujo. A mesa em que minhas idéias estão apoiadas está meio bamba, a risco de desabar a qualquer momento. A cadeira a acompanha nisto, e a cada vez que me movimento ouço um “creck” proveniente dos pés desta. O chão, sujo e cheio de buracos, range a cada piso dado, e a cortina parece ser uma moradia de traças. Nem me faça chegar à cama: parece um ninho para vermes e outros seres desconhecidos.

Uma cortina de nylon, bem barata, está pregada na janela, e isso aumenta a claridade aqui... Estou tendo de escrever com a porta do armário aberta em frente à janela para eu não morrer de insolação. E ainda por cima, o ar condicionado está quebrado no aquecedor e o quarto está uma verdadeira sauna. Já bebi quase dois litros de água aqui em apenas cinco horas de estadia!

O papel de parede horrendo está descascando, caindo pedacinhos no chão. Algumas paredes que ficam opostas ao banheiro estão sofrendo de inundação, o que prejudica ainda mais o papel de parede. Cupins já festejaram e banquetearam sobre a porta do armário, na cômoda e nos pés da cama, o que a faz ficar meio desequilibrada. E de vez em quando, a luz pisca várias vezes e desliga-se por um longo tempo, voltando a ligar quando já estou praticamente surtando.

E ainda há os queridos vizinhos, que reclamam que eu faço muito barulho.

Um minuto para eu me recompor, queridos leitores.

Está bem.

Já me acalmei.

Agora, apenas me respondam: como, mas COMO eu faço tanto barulho se eu passo o dia inteiro preso aqui dentro escrevendo, escrevendo e escrevendo? A mulher deve ter um ouvido super aguçado e deve ouvir minha caneta arranhando o papel, só pode!

Mas tenho que confessar... A única coisa que eu fiz que fez barulho foi movimentar o armário até perto da janela. ÚNICA.

Hm... Eu também gosto de ficar ouvindo música, porque assim elas me inspiram e fica mais fácil combater a falta de criatividade... Er... Retiro minhas acusações sobre a pobre velha.




Desculpe-me, prezado leitor, mas tive que fazer uma breve pausa porque a cama onde eu estava sentado simplesmente DESMORONOU. Simplesmente.

Posso lhe dizer que realmente, estou num quarto de muita precariedade.

O que posso fazer se não tenho recursos suficientes para um quarto de cinco estrelas? Ainda por cima, sou viajante, viajo o mundo afora, escrevendo sobre minhas experiências, sobre pessoas que me rodeiam... Minha estadia aqui será curta, estou aqui apenas para acabar este meu trabalho.

Acho que deveria me apresentar, não? Sou um mero escritor, e uma das minhas bebidas favoritas é café expresso. Gosto muito de ler jornal e textos longos, e o que mais me acalma é o barulho da chuva caindo no chão ou o vento batendo suavemente no vidro. Posso afirmar que sou um pouco hiperativo, já que não paro quieto. Uma vez que começo a escrever numa pagina branca, não sei quem consegue me parar. As tropas de Roma podem tentar, mas continuarei escrevendo até o ultimo dia de minha vida, pois esta é minha paixão, este é o motivo de minha vida. Creio que morrerei afogado na própria tinta de meu tinteiro e de meus contos, se possível. Porém, posso afirmar que por enquanto gozo de bastante saúde, e acredito que o sopro da morte ainda está meio longe de meu alcance...

Já escrevi sobre milhares de coisas. Já tentei escrever uma autobiografia, porém pensei que seria muita falta de humildade. Desisti. Escrevi histórias sobre experiências que vivenciei, mas eram todas tão... Monótonas. Monótonas e sem graças quanto a este quarto, no terceiro andar de um prédio mal cuidado e pequeno.

Meu nome não importa. Quase nunca fui dirigido por ele, ninguém parece muito se importar comigo para se lembrar dele. Então, pode me chamar apenas de “Narrador”. Sim, Narrador. Ou Narradora. Não sei, meu sexo não te importa agora.

Sou o que pode ser considerado de 'nômade'. Sem lugar para morar, juntei o resto do dinheiro, peguei algumas roupas e alguns pedaços de papel e cadernos, e comecei a vagar por ai, de vez em quando ficando na casa de amigos, em casas alugadas, em hotéis, e ganho meu pão escrevendo histórias e fazendo alguns outros trabalhos. Por isso tenho que ficar num hotel tão miserável como este.

Estou neste quarto ao terceiro andar mais miserável e precário que já pisei na minha vida, com mesas bambas, camas quebradas, cortinas baratas, papeis de paredes horrendos, moradia para cupins, uma verdadeira sauna... Mas, ele tem um grande valor para mim.

E é o melhor quarto que eu já estive.

Espero que não tenha te confundido, caro leitor. Isto mesmo, este quarto, ao terceiro andar, tem milhares de historias para contar, e, além disso, parece estar se autoflagelando e se remoendo para poder divulgá-las. E este é o meu trabalho. Contar, com todos os detalhes, as histórias de todos os hóspedes do quarto 304.


Que comece a história, que abram as cortinas, pois a peça irá começar.

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