sexta-feira, 30 de julho de 2010

After all, you're just another brick in the wall




“After all, you're just another brick in the wall...”




Eu estava morto.

Era apenas um cadáver que se mexia, que falava, que andava; não sabia viver.

Estava morto.

Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida.

Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida. Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida. Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida. Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida.

Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida, repetia em voz alta enquanto a caneta em minhas mãos rabiscava as paredes imundas do banheiro público. A voz continuava a berrar em meus ouvidos em minha mente, dizendo-me para continuar, nunca cessar; e eu a obedecia, sem ter nenhuma vontade de querer desobedece-la. Precisava fazer aquilo – era uma vontade, um desejo que vinha de algo que eu achei que eu nunca havia possuído – minha alma.

A tinta preta da caneta continuava a rabiscar as paredes brancas, que logo estavam ficando sem espaço para todos os meus dizeres. Não me importava, as comprimia, deixava-me minhas letras mais finas e dava meu jeito para caber mais palavras nas paredes.

A luz estava fraca e estava piscando, fazendo meus olhos lacrimejarem. Mas eu não podia parar; aquele era o meu dever, eu precisava continuar.

Quando o espaço da parede acabou, passei a escrever nos chãos, nas pias, nos boxes, nas portas, nos espelhos; em todo o lugar que estivesse uma superfície propícia para meu fardo, eu tomava posse dela, e aquilo virava mais um espaço de minha posse.

Aquele lugar era meu.

Meu espaço, e somente meu; onde eu podia expressar tudo que eu queria. Ouvia alguém bater na porta, berrando ao lado de fora, mas pouco me importava; aquele era meu espaço e ninguém adentraria dentro dele. Ninguém poderia entrar naquele meu mundo pessoal.

Eu sabia quem eram, eu já havia visto os rostos distorcidos deles; apareciam nos meus pesadelos, me botando em uma gaiola e me trancando com um cadeado sem a chave. Apareciam nos meus pesadelos, me puxando para baixo d'água e contra a correnteza, me afogando. Apareciam nos meus pesadelos, ensinando-me como voar para depois ter o prazer de cortar minhas asas. Eram eles, os demônios em pessoa, e eles tentavam derrubar a porta e tentar me pegar, me asfixiar, me cortar, me dilacerar , me afogar, me cegar, me ensurdecer, me mutilar, me quebrar, me matar...

Eles tentavam abrir a porta, mas dessa vez eles não conseguiriam me pegar.

Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida.

Completei mais uma frase e olhei ao meu redor, admirando o meu feito. Havia conseguido. Estava lotado de verdades absolutas ao meu redor; os fundamentos de minha vida. Sorri ao pensar que, após todo aquele tempo, eles não haviam conseguido me capturar ainda. E nunca conseguiriam.

Rodei nos meus próprios calcanhares, cada vez mais rápido, vendo aquelas frases se mesclarem em borrões e rabiscos impossíveis de ser lidos, ilegíveis. Um berro explodiu de minha garganta enquanto me movimentava, sentindo o ar flutuando ao meu redor como se estivesse prestes a me erguer e tirar os pés do chão.

Minha hora estava chegando. Logo, seria minha vez; foda-se a sociedade, fodam-se as pessoas, foda-se a ordem estabelecida.

Por anos, eles tentaram me domar. Me reprimir. Me submeter. Mas eu, assim como poucos, resisti ao sistema. No meio de todas pessoas iguais e sem opinião formada sobre nada, eu me ergui e criei asas, e por isso consideravam-me uma ameaça. Eu era diferente. Meus pensamentos não são iguais aos dos outros, e sempre gritei o mais alto que pude para todos me ouvissem.

Eles não gostaram.

Então, vieram atrás de mim.

Não me importava. Eles nunca iriam conseguir me fazer sumir.

Minha mente era o meu refúgio, e nela eu conheci a sabedoria. Ao contrário dos outros, eu havia visto a luz, e ela não havia me cegado; ela havia me seduzido. E eu me deixei levar por ela, não me importando com o que pensariam.
Eu controlava a minha vida.

E apenas eu.

Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida.

Girava em torno de mim mesmo tão rápido que a gravidade me puxou para baixo. Deixei meu corpo cair no chão e ouvi o som surdo deste em contato ao chão frio de pedra. Minha visão ainda rodava, apesar de meu corpo estar totalmente parado; os traços e as cores se confundiam e não dava para ver nem término nem início. Justamente como tudo era neste mundo maldito; as pessoas eram confusas, não enxergavam nada além de que lhes era dado, parecendo conformadas com isso.

E o meu sangue fervia com aquilo. Como alguém poderia simplesmente aceitar algo que lhe foi dado, e não experimenta-lo, vivência-lo, conhece-lo?

Talvez seja isso. Tinham medo que todos se libertassem desta inércia e começassem a se rebelar e a escrever nas paredes, que nem eu estava fazendo. Tinham medo de perder o controle, de perder o poder; afinal, só isso regia nesta sociedade vendada: o poder...

O poder de quê? De calar a boca dos outros e mandá-los a ouvir besteiras?

Não me conformava com isso.

Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida.

Minha cabeça parou de girar e eu me sentei , vendo a imensidão do que eu havia feito. Sorria, e a cada segundo meus lábios se contorciam mais ainda em um sorriso. Ainda faltava algo; o final já estava chegando e eu conseguia senti-lo no ar, me entorpecendo e me atraindo... Sentia-o na pulsação de meu coração e na minha respiração arfada; sentia nos terminais nervosos de meu organismo e no meus olhos, que fitavam tudo atenciosamente.

No meio daquele mar de emoções, senti os nervos sensoriais da ponta dos meus dedos se deliciarem quando sentiram o pacote que estava em meu bolso. Com as mãos decisivas, eu o segurei e o puxei para fora, depositando-o em cima da pia, me levantando logo em seguida. Fitei o espelho com minha caligrafia e depois olhei para o meu próprio rosto – que era meu e não era parecido com o de ninguém.

Eu era único.

Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida.

Tinha uma substância mágica dentro de uma pequena seringa que estava no pacote. Era uma substância que dar fim a minha dor e ao meu fardo; algo que finalmente ia fazer meu coração bater e meu pulmão respirar. Era algo que ia fazer o sangue correr pelos meus vasos sangüíneos e ativar meus cinco sentidos.

Aquela substância era a morte.

Batiam na porta e berravam contra ela com força, querendo derrubá-la de qualquer jeito. Mas não podiam traze-la ao chão enquanto eu ainda estivesse lá dentro.

A agulha perfurou minha veia e eu senti seu poder tomando conta de minhas células, tecidos e órgãos. Agia rápido, e logo minhas pernas estavam incapazes de sustentar o resto de meu corpo. Cedi, e ajoelhei no chão, sentindo meu abdômen perder sua força e logo meu tórax era incapaz de me manter ereto. Cai de costas no chão, sentindo meu corpo dormente; era impossível de me mexer. A única coisa intacta eram meus olhos e meus lábios, que olhavam para a porta e via os pregos, um por um, começarem a ceder à força da pancada; mas sorria ao saber que eles não chegariam a tempo.

Olhei para o teto, o único lugar livre de meus rabiscos. O único lugar que estava acima de tudo aquilo, como se fosse um nível superior, e que não se envolvia com os perigos e com as loucuras que rondavam a Terra aqui embaixo.

Aquela imagem, de algo limpo e imaculado, foi a útlima coisa que eu vi.

Não os vi derrubando a porta, não os vi adentrando em meu recinto e se deparando com o meu corpo imóvel no chão frio de pedra.

Via apenas branco.

Estava vivo.

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