
“After all, you're just another brick in the wall...”
Eu estava morto.
Era apenas um cadáver que se mexia, que falava, que andava; não sabia viver.
Estava morto.
Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida.
Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida. Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida. Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida. Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida.
Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida, repetia em voz alta enquanto a caneta em minhas mãos rabiscava as paredes imundas do banheiro público. A voz continuava a berrar em meus ouvidos em minha mente, dizendo-me para continuar, nunca cessar; e eu a obedecia, sem ter nenhuma vontade de querer desobedece-la. Precisava fazer aquilo – era uma vontade, um desejo que vinha de algo que eu achei que eu nunca havia possuído – minha alma.
A tinta preta da caneta continuava a rabiscar as paredes brancas, que logo estavam ficando sem espaço para todos os meus dizeres. Não me importava, as comprimia, deixava-me minhas letras mais finas e dava meu jeito para caber mais palavras nas paredes.
A luz estava fraca e estava piscando, fazendo meus olhos lacrimejarem. Mas eu não podia parar; aquele era o meu dever, eu precisava continuar.
Quando o espaço da parede acabou, passei a escrever nos chãos, nas pias, nos boxes, nas portas, nos espelhos; em todo o lugar que estivesse uma superfície propícia para meu fardo, eu tomava posse dela, e aquilo virava mais um espaço de minha posse.
Aquele lugar era meu.
Meu espaço, e somente meu; onde eu podia expressar tudo que eu queria. Ouvia alguém bater na porta, berrando ao lado de fora, mas pouco me importava; aquele era meu espaço e ninguém adentraria dentro dele. Ninguém poderia entrar naquele meu mundo pessoal.
Eu sabia quem eram, eu já havia visto os rostos distorcidos deles; apareciam nos meus pesadelos, me botando em uma gaiola e me trancando com um cadeado sem a chave. Apareciam nos meus pesadelos, me puxando para baixo d'água e contra a correnteza, me afogando. Apareciam nos meus pesadelos, ensinando-me como voar para depois ter o prazer de cortar minhas asas. Eram eles, os demônios em pessoa, e eles tentavam derrubar a porta e tentar me pegar, me asfixiar, me cortar, me dilacerar , me afogar, me cegar, me ensurdecer, me mutilar, me quebrar, me matar...
Eles tentavam abrir a porta, mas dessa vez eles não conseguiriam me pegar.
Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida.
Completei mais uma frase e olhei ao meu redor, admirando o meu feito. Havia conseguido. Estava lotado de verdades absolutas ao meu redor; os fundamentos de minha vida. Sorri ao pensar que, após todo aquele tempo, eles não haviam conseguido me capturar ainda. E nunca conseguiriam.
Rodei nos meus próprios calcanhares, cada vez mais rápido, vendo aquelas frases se mesclarem em borrões e rabiscos impossíveis de ser lidos, ilegíveis. Um berro explodiu de minha garganta enquanto me movimentava, sentindo o ar flutuando ao meu redor como se estivesse prestes a me erguer e tirar os pés do chão.
Minha hora estava chegando. Logo, seria minha vez; foda-se a sociedade, fodam-se as pessoas, foda-se a ordem estabelecida.
Por anos, eles tentaram me domar. Me reprimir. Me submeter. Mas eu, assim como poucos, resisti ao sistema. No meio de todas pessoas iguais e sem opinião formada sobre nada, eu me ergui e criei asas, e por isso consideravam-me uma ameaça. Eu era diferente. Meus pensamentos não são iguais aos dos outros, e sempre gritei o mais alto que pude para todos me ouvissem.
Eles não gostaram.
Então, vieram atrás de mim.
Não me importava. Eles nunca iriam conseguir me fazer sumir.
Minha mente era o meu refúgio, e nela eu conheci a sabedoria. Ao contrário dos outros, eu havia visto a luz, e ela não havia me cegado; ela havia me seduzido. E eu me deixei levar por ela, não me importando com o que pensariam.
Eu controlava a minha vida.
E apenas eu.
Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida.
Girava em torno de mim mesmo tão rápido que a gravidade me puxou para baixo. Deixei meu corpo cair no chão e ouvi o som surdo deste em contato ao chão frio de pedra. Minha visão ainda rodava, apesar de meu corpo estar totalmente parado; os traços e as cores se confundiam e não dava para ver nem término nem início. Justamente como tudo era neste mundo maldito; as pessoas eram confusas, não enxergavam nada além de que lhes era dado, parecendo conformadas com isso.
E o meu sangue fervia com aquilo. Como alguém poderia simplesmente aceitar algo que lhe foi dado, e não experimenta-lo, vivência-lo, conhece-lo?
Talvez seja isso. Tinham medo que todos se libertassem desta inércia e começassem a se rebelar e a escrever nas paredes, que nem eu estava fazendo. Tinham medo de perder o controle, de perder o poder; afinal, só isso regia nesta sociedade vendada: o poder...
O poder de quê? De calar a boca dos outros e mandá-los a ouvir besteiras?
Não me conformava com isso.
Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida.
Minha cabeça parou de girar e eu me sentei , vendo a imensidão do que eu havia feito. Sorria, e a cada segundo meus lábios se contorciam mais ainda em um sorriso. Ainda faltava algo; o final já estava chegando e eu conseguia senti-lo no ar, me entorpecendo e me atraindo... Sentia-o na pulsação de meu coração e na minha respiração arfada; sentia nos terminais nervosos de meu organismo e no meus olhos, que fitavam tudo atenciosamente.
No meio daquele mar de emoções, senti os nervos sensoriais da ponta dos meus dedos se deliciarem quando sentiram o pacote que estava em meu bolso. Com as mãos decisivas, eu o segurei e o puxei para fora, depositando-o em cima da pia, me levantando logo em seguida. Fitei o espelho com minha caligrafia e depois olhei para o meu próprio rosto – que era meu e não era parecido com o de ninguém.
Eu era único.
Foda-se a sociedade. Fodam-se as pessoas. Foda-se a ordem estabelecida.
Tinha uma substância mágica dentro de uma pequena seringa que estava no pacote. Era uma substância que dar fim a minha dor e ao meu fardo; algo que finalmente ia fazer meu coração bater e meu pulmão respirar. Era algo que ia fazer o sangue correr pelos meus vasos sangüíneos e ativar meus cinco sentidos.
Aquela substância era a morte.
Batiam na porta e berravam contra ela com força, querendo derrubá-la de qualquer jeito. Mas não podiam traze-la ao chão enquanto eu ainda estivesse lá dentro.
A agulha perfurou minha veia e eu senti seu poder tomando conta de minhas células, tecidos e órgãos. Agia rápido, e logo minhas pernas estavam incapazes de sustentar o resto de meu corpo. Cedi, e ajoelhei no chão, sentindo meu abdômen perder sua força e logo meu tórax era incapaz de me manter ereto. Cai de costas no chão, sentindo meu corpo dormente; era impossível de me mexer. A única coisa intacta eram meus olhos e meus lábios, que olhavam para a porta e via os pregos, um por um, começarem a ceder à força da pancada; mas sorria ao saber que eles não chegariam a tempo.
Olhei para o teto, o único lugar livre de meus rabiscos. O único lugar que estava acima de tudo aquilo, como se fosse um nível superior, e que não se envolvia com os perigos e com as loucuras que rondavam a Terra aqui embaixo.
Aquela imagem, de algo limpo e imaculado, foi a útlima coisa que eu vi.
Não os vi derrubando a porta, não os vi adentrando em meu recinto e se deparando com o meu corpo imóvel no chão frio de pedra.
Via apenas branco.
Estava vivo.
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